Há muito o Náuseas perdeu seu rumo. Não, minto, o Náuseas nunca teve um rumo. Aqui coloco coisas que estou afim no momento em que estou a fim. O Náuseas é um descompromissado monte de desencontros entre minhas ideias e a realidade que me ataca o estômago.
Mas, como que para aliviar uma ressaca, iniciei os trabalhos de catalogação da coleção do jornal O Pasquim que minha santa mãezinha carrega desde a década de 80 em todas as nossas mudanças. (E não foram poucas mudanças, frise-se). Depois de desistir de ser atriz, professora e doutora acabei me enfiando nisso de cuidar de arquivos, e agora apronto um TCC esperto com esse acervo particularmente rico.
Pouco importa, colega, importa é que vou publicar umas coisas interessantes que eu achar por aqui, tipo esse texto do saudoso Leonel Brizola, que segue abaixo. Se me perseguirem por violar direitos autorais ofereço minhas havaianas e umas poesias bobas que ando escrevendo pra pagar a dívida.
Tem muita história legal por aqui pra eu ficar de pudorzinho autoral, ces não acham? Eu acho.
Segue o sempre certeiro Leonel:
O Pasquim (para maiores de 16 anos)
Ano XI - nº 568 Rio, de 16 a 22/5/80 - Cr$ 40,00 "Delfim combatendo a inflação? Quá, Quá, Quá!" (sic)
Governam como quem conspira
Fazer política é um pouco como navegar contra a correnteza: se o barco não vai para a frente, vai para trás. Talvez por isso um velho, experiente e obstinado político inglês, Cromwell, gostasse de analisar os acontecimentos dos quais era ativo participante com uma frase muito simples mas verdadeira: "Se a situação não está melhorando, está piorando". A verdade desta frase se aplica, especialmente, aos momentos de passagem de regimes fechados e autoritários para a democracia que prevê e exige, para ser real, uma ampla e crescente participação da sociedade nas decisões.
Sem dúvida a passagem de um regime autoritário para uma democracia dificilmente se realiza sem traumas e até violências. Mas na história brasileira é possível recolher exemplos de passagens semelhantes realizadas quase sem traumas nem violências. Neste momento, a barca de abertura política navega a meia máquina e vai quase parando. Se parar, retrocede. O que importa a todos descobrir - e neste "todos" estão Governo, oposição e o conjunto da sociedade - é como dar toda máquina rumo à democracia.
Um momento de abertura exige do Governo, sobretudo, confiabilidade. Na verdade, confiabilidade é que menos o Governo inspira. O hábito do arbítrio faz com que os círculos governamentais mais responsáveis governem como quem conspira. Decidem em salas impermeáveis, conciliábulos de poucos, às escuras, sem que a sociedade participe e fazem publicar no Diário Oficial do dia seguinte as suas decisões. A sociedade na maioria das vezes é pega de surpresa. Em algumas reage e com sucesso, como foi o caso do imposto sobre exportação da soja. Mas mesmo retrocedendo diante do clamor social, o Governo não inspira confiança, pois a decisão era necessária ou não era. Se era necessária por que voltar atrás? Para casuisticamente não perder votos?
De parte do Governo o que mais está faltando para viabilizar um real avanço democrático é um ato que comprove suas boas intenções, não só que inspire confiança, mas que seja ele mesmo um ato de segurança, como, por exemplo, realizar as eleições municipais previstas para 15 de novembro. Ou dar prioridade e urgência para aprovação da Emenda que restaura as eleições democráticas para Governadores. Estes seriam atos de quem está seguro do rumo que quer dar à embarcação. E nada melhor do que pessoas seguras de si para inspirarem confiança.
Em contrapartida, as várias correntes da oposição devem apostar numa evolução democrática. Os trabalhistas apostam e fazem desta aposta, no atual momento, um parâmetro de sua identidade política. Para os trabalhistas todas as soluções passam por uma democracia real, que se formalize em eleições verdadeiramente livres com a participação de todas - escrevi "todas" - as correntes de opinião e que amplie os círculos de decisões até as camadas populares. Que se realize, verdadeiramente, uma redistribuição do Poder.
Se a sociedade desconfia - e com toda a razão - do Governo pelos seus integrantes insistirem em governar como quem conspira, é verdade também que as camadas populares preferem uma oposição estabilizadora a uma oposição meramente confrontadora. Não basta querer derrubar o que aí está, muito mais importante é oferecer uma alternativa concreta de Poder, mesmo por que a experiência do "confronto pelo confronto" tem levado a inevitáveis derrotas. E o povo anseia por vitórias e por saídas otimistas e não apocalípticas. A vitória do povo passa antes por sua organização.
A greve do ABC é como uma síntese desta situação. Do lado do Governo novamente a incompetência que começou com um ministro do Trabalho que prefere defender o capital a conversar com os trabalhadores e novamente as decisões fechadas que culminaram com a prisão, ou melhor sequestro, de líderes sindicais. A greve serviu para aumentar a crise de confiança entre Governo e sociedade.
Leonel Brizola.
 |
| Esta imagem está no pé do texto acima. haha |