quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Os resultados do código florestal catarinense e o futuro do Brasil

Este post é um compromisso antigo, um presente pro blog. Este texto irretocável, do qual sinto orgulho embora o tema me entristeça, serve para esclarecer do que é capaz o interesse meramente financeiro dos poderosos do estado de Santa Catarina, em detrimento do bem estar de toda uma população, que infelizmente é levada "no bico" por promessas de prosperidade. Sob a cobertura de uma imprensa suja e vendida, dona de praticamente todos os meios de comunicação deste estado, vemos avançar o espólio de nossas terras para o bem da elite sempre no poder, para a triste sina de um povo calado e quase omisso. Não preciso acrescentar muito mais, o texto é longo, mas exalto aqui a importância de percorrê-lo até o fim, como numa viagem "por toda Santa Catarina" (Peço atenção dos leitores e leitoras às fotos).

Os 28,8 milhões federais para “prevenção” da seca no Oeste catarinense e a nova paisagem do Brasil

Em viagem de trabalho nos meses de agosto, setembro e outubro de 2010, percorri, numa van, mais de 10 mil quilômetros atravessando o estado de Santa Catarina de norte a sul, de leste a oeste, por mais de três vezes. Num único dia, por várias oportunidades, passei do extremo-oeste, fronteira com Argentina, ao extremo sul , ou ao Vale do Itajaí, ou ao litoral. As dores nas costas, provocadas por hérnias que se multiplicam pela extensão da minha coluna, ficaram parecendo machucadinho de criança diante do espetáculo de terror, digno de filmes de ficção do século passado, hoje apenas arremedos da realidade.

A cada quilômetro dentro daquela van, que denominei de Caravana da Dança, pois que carregava a equipe que realizou a 12ª edição do Festival Mário de Andrade de Dança Escolar – assunto para texto posterior - me assustava o tamanho do desmatamento em todo o estado. A substituição criminosa da Mata Atlântica por plantações de pinus e eucaliptos, vistas em grandes extensões, ou camufladas, dividindo espaço com as pastagens e grandes áreas dedicadas ao cultivo da soja, principalmente no Oeste e no Planalto Norte do estado é inegável, está escancarada diante dos olhos de qualquer um.


Estrada de Grão Pará, sul do estado, para Serra do Corvo Branco -
Urubici - primeira estrada de ligação entre o litoral e o Planalto serrano catarinense


Estrada de Grão Pará, sul do estado, para Serra do Corvo Branco -
Urubici - primeira estrada de ligação entre o litoral e o Planalto serrano catarinense 


Tive certeza de que a seca deste ano seria pior que a do ano passado, que foi pior que a do ano anterior e assim, sucessiva e regressivamente, nos últimos 12 anos em que o assunto estampa as manchetes pobres e superficiais dos meios de comunicação, que apenas dão coro aos reclames por “recursos” para a “prevenção”. Não pode haver prevenção de algo que foi planejado apenas para dar mais lucro a uma pequena parcela de pessoas que controlam o agronegócio e desnudam a lógica mais perversa do capitalismo: a ganância se alimentando da necessidade de sobrevivência. Das grandes áreas às pequenas propriedades, a paisagem é uma monotonia angustiante, arauto de tempos muito, muito difíceis que já começaram. 

Estrada de Grão Pará - vista para o morro
Vista da estrada de Grão Pará - Serra do corvo branco - Pinus

Meus companheiros de viagem, no entanto, só começaram a olhar com atenção, porque urbanos em essência não distinguiam pinus de Mata Atlântica – tudo é verde, tudo é “bonito” de se ver - devido ao choque manifestado a cada quilômetro por esta que escreve, geralmente com um ou mais palavrões nas frases. Palavrões são libertadores, como bem descreveu Luis Fernando Veríssimo. Mas, não desta vez. Não houve alívio. Não haverá.

A cada quilômetro percorrido, lembrava-me e pude compartilhar com meus companheiros que “não gostam de política”, do processo que levou o Parlamento catarinense a aprovar, no começo de 2009, o Código Florestal do estado, aquele que, entre outras aberrações, reduziu para cinco metros a faixa de preservação da mata ciliar que protege rios, córregos e veios d’água. Uma legítima “inovação” catarina, patrolada na Assembléia pela maioria governamental e pelo medo das urnas da maioria dos parlamentares de oposição, um deles, aliás, a quem eu prestava meus serviços como assessora de comunicação.


Pinus e mais Pinus - estrada de Grão Pará

O tal Código, uma excrescência catarinense demonstrativa da promiscuidade política com os interesses econômicos, endossou o Código Florestal aprovado pelo Congresso Nacional. Este teve como um dos seus mais ferrenhos defensores e relator em uma das Comissões no Senado, Luiz Henrique da Silveira (PMDB), governador por oito anos junto com DEM (ou, vá lá, PSD) e o PSDB (ou, tucanos, que considero um estigma que essas aves não merecem). E, claro, votos favoráveis da maioria da bancada catarinense naquela Casa. A subserviência à grana certa das indústrias de papel, celulose, madeira e do agronegócio nas campanhas eleitorais de vários deles, a começar pelo próprio Luiz Henrique, afasta a possibilidade de qualquer ironia do destino no caso.


Estrada de Grão Pará - Eucaliptos na margem esquerda do rio, margem direita nua 

Para contextualizar historicamente – coisa que a nossa “grande imprensa” despreza quando não é para sustentar mantras da exploração econômica ou para acabar com reputações - lembro que o Código catarinense iria à Plenário no gargalo do fim do ano legislativo de 2008, oportunidade em que os parlamentares cansam de aprovar o que sequer leram. Os deslizamentos que mataram mais de uma centena e desabrigaram milhares naquele dezembro negro de 2008 atrasaram um pouco, mas só um pouco, os planos de seus mentores: os empresários que seguem a cartilha do capitalismo selvagem, dois sinônimos de qualquer forma.



Faxinal dos Guedes, centro-oeste de SC, às margens da BR-282 - soja, pinus e eucalipto 
Faxinal dos Guedes, centro-oeste de SC, às margens da BR-282 - soja, pinus e eucalipto 

Minha indignação manifesta de forma malcriada virou piada, a princípio, em diversas oportunidades. Mas, a profunda tristeza com a paisagem que testemunhava e que buscava captar com a câmara fotográfica num veiculo em movimento, acabou acordando meus companheiros de viagem para o que isso representa para todos nós, pelo menos naquele período. Afinal, é natural que seis pessoas, três bailarinos, um motorista, uma professora e assistente administrativa e esta ainda jornalista, condenados a viver 44 dias juntos, a maior parte deles dentro de uma van desconfortável, na estrada, acabem por desenvolver uma relação mais próxima, pelo menos durante o tempo em que dividem o cárcere, o que permite certas piadas entre eles e, ao mesmo tempo, favorece a troca de informações, de percepções sobre a realidade que nos cerca e suas consequências.


SC-421, próximo à Presidente Getúlio - Vale do Itajai (mais pinus nos morros)

SC-421, próximo à Presidente Getúlio - Vale do Itajai
(contraste nos morros, a mata nativa e a vegetação intrusa)
Pinus e eucalipto são exóticos ao nosso ecossistema. E o matam. Sem dó nem piedade, secando a terra, expulsando e matando toda uma fauna e flora que mantêm o equilíbrio do solo e do clima. Nada cresce sob os pinus e os eucaliptos. O silêncio, só quebrado pela passagem do vento ou da chuva, ou pelas máquinas, é aterrador nessas áreas. Não há uma única ave ou qualquer outro animal natural da Mata Atlântica que consiga estabelecer uma relação de sobrevivência com essa vegetação estranha. E o solo, bem, o que acontece com o solo? Com sua capacidade de absorção de água e, portanto, de manutenção dos veios desse líquido indispensável à vida? E a umidade do ar, um dos fatores que propiciam as chuvas, não tem relação com a vegetação? “Nada a ver”, costumam dizer poder econômico e seus subservientes arremedos de políticos. Oras, eles sabem de tudo não é? São cientistas, especialistas. Compraram pesquisas, encomendaram levantamentos, etc, etc. “Bobagens”, sentenciam os donos do dinheiro e do poder (mais sinônimos, que chato).


Passagem serra de Seara em direção a  Concórdia
Passagem serra de Seara em direção a  Concórdia
Vi milhares e milhares de exemplares de pinus e eucaliptos, alguns com a idade do Código Florestal catarinense, aprovado em 2009, espalhados “por toda Santa Catarina”, muitos estrategicamente escondidos em meio à Mata Atlântica que agoniza sem que ninguém a socorra. Não seremos socorridos por ela, tampouco, disso eu tenho certeza. Os pinus se reproduzem através de seus esporos, levados pelo vento, e vão tomando conta de tudo, sem que isso exija qualquer esforço a mais. E o que isso tem a ver com a seca, com a falta de chuvas? Ou com as cheias? Os deslizamentos? Os ensinamentos básicos escolares são suficientes para responder essas questões, não é mesmo? 



Início da subida da Serra do Rio do Rastro - rodovia SC 438 - de Lauro Müller,
passando pelo município de Guatá, sul do estado
Início da subida da Serra do Rio do Rastro - rodovia SC 438 - de Lauro Müller,
passando pelo município de Guatá, sul do estado

Em 20 anos, no máximo, Santa Catarina será “terra seca, árida” e não serão os R$ 28,8 milhões dos cofres públicos para perfurar poços em busca de água e construir cisternas, comemorados pela imprensa que se dedica cada vez mais apenas à superfície, e pelos políticos de olho nas eleições municipais, que vão mudar isso. Nem que rios de dinheiro sejam incensados em eventos nitidamente de conotação político-eleitoreira, com direito a declarações teatrais de empresários e políticos experts em ordenhar recursos públicos e fazer média com seus potenciais eleitores, despolitizados e manipulados em sua necessidade de sobrevivência. Às expensas de ilusões vendidas ao povo da região Oeste, no caso em foco, para dissimular ações mercenárias de um poder econômico que não tem vergonha de bancar o estelionato do patrimônio ambiental e o dinheiro público, a farsa transforma-se em verdade reproduzida sem questionamentos por uma imprensa sem dignidade, sem escrúpulos, despida de sentido de coletividade. 


Lageado Grande -centro oeste de SC
Lageado Grande -centro oeste de SC


Este horror ambiental que tende a se reproduzir agora com mais velocidade no país, afeta não mais às futuras gerações, mas às gerações de hoje. O futuro já chegou. O estrago do Código Florestal de Santa Catarina, engendrado pela turma de Luiz Henrique da Silveira e do atual governador Raimundo Colombo, está diante dos olhos de quem quiser ver. E tudo é comemorado pelos algozes. Trazer R$ 28,8 milhões para “prevenção” à seca no Oeste vira espetáculo, comício. Com direito à presença especial de pessoas como a dona Kátia Abreu, por exemplo, figura de alegoria no evento promovido no Oeste catarinense para sancionar a lei catarina em 2009, o máximo do escárnio manipulatório de pequenos produtores, que estão varrendo as culturas de hortaliças e grãos variados de suas pequenas propriedades sufocadas pelo entorno de pinus e eucaliptos. A dona Kátia Abreu é aquela grileira, estelionatária de terras que usa da violência bárbara tão comum aos seus pares do setor e representa os interesses do tal agrobusiness (gostaria de saber por que usar o inglês, o provincianismo dessa gente me impacienta). As empresas a quem deram satisfação no comício de 2009 e no evento da entrega dos R$ 28,8 milhões pelo ministro são financiadores de suas campanhas – quando não seus sócios - e ganham muito, mas muito dinheiro com a plantação da monocultura da soja e a exploração da madeira por aqui.

SC 438 - de São Joaquim - Bom Jesus da Serra à Serra do Rio do Rastro
SC 438 - de São Joaquim - Bom Jesus da Serra à Serra do Rio do Rastro (uma mísera araucária suspira)
SC 438 - de São Joaquim - Bom Jesus da Serra à Serra do Rio do Rastro 

Dinheiro rápido, fácil - pinus e eucalipto ficam prontos rapidinho para o aproveitamento industrial. E de lógica cruel, como sempre, pois manifesta a forma mais perversa do capitalismo que nos corrói enquanto civilização: a simbiose da ganância de quem tem muito com a necessidade de sobrevivência dos que quase nada têm. “Todos os pequenos produtores estão trocando o cultivo pela plantação dessas árvores, minha senhora. É triste ver o que está acontecendo. Isto vai acabar com a gente, vai nos matar de sede e de fome”, disse-me um filho de agricultor que trabalha no hotel em que ficamos por duas noites em São Miguel do Oeste.


Guaramirim norte de SC - 180 Km de Floripa - da janela do hotel
Mafra - divisa PR - planalto norte de SC - margens da BR-116  soja, pinus e eucalipto ao redor de tudo
Estrada para Lages - via Alto Vale - SC -302 e BR-470
Já escrevi demais, continuo prolixa e isso me incomoda. Então, fico por aqui. O que minha incapacidade com as palavras me impede de expressar de forma compreensível está nas fotos. É só prestar atenção, o verde que aparece nas pequenas montanhas, nas planícies, seja nos caminhos fotografados no Oeste, no Sul, no Vale do Itajaí, e inclusive nas Serras, como a do Corvo Branco, caminho espetacular do sul do Estado em direção ao Planalto Lageano onde ficam as cidades que atraem milhares de turistas pela neve (cheias de eucaliptos e pinus, claro), não são a linda, rica e viva Mata Atlântica ou a antiga Mata de araucária: são pinus e eucalipto.
Mirela Maria Vieira

Ainda Jornalista, freelando.


OBS.: Para quem quiser verificar o que está diante dos olhos em pesquisa científica, recomendo a leitura da pesquisa “A Mata Atlântica cede lugar a outros usos da terra em Santa Catarina, Brasil”, de autoria de Alexandre Siminski e Alfredo Celso Fantini, do Núcleo de Pesquisas Florestais da UFSC , publicado em junho de 2010. Foi submetido à banca acadêmica para publicação em 2009. O endereço é este: http://www.biotemas.ufsc.br/volumes/pdf/volume232/51a59Final.pdf

2 comentários:

  1. e' incrivel que pessoas que vivem no nosso estado estejam tao preocupadas com o que acontece no Big Brother, ate' se mobilizando pela dita moral e nao deem a minima para este catastrofe (tb moral) que esta' acontecendo no nosso estado!!

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  2. Obrigada por doar seu tempo para nos trazer essas informações.

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