quinta-feira, 29 de março de 2012

Quem comemora a ditadura aplaude a pior das políticas

Os militares de pijama resolveram hoje comemorar o golpe de 64 que nos mergulhou em uma ditadura, golpe este a que chamam "revolução". Não compreendo o conceito de revolução destes senhores, já que a ditadura nada mais fez que manter o status quo da exploração e da cassassão de direitos individuais a duras penas conquistados, ou melhor, ali, em 64, pretendendo-se alargados através das reformas de base de Jango.

Reforma agrária, reforma universitária, reforma urbana, um país menos injusto, cidadãos leitores pensantes, a verdadeira face ameaçadora da tal ditadura comunista à qual dizem ter reagido civis e militares golpistas, ao depor um presidente democraticamente eleito, ao matar e prender militares discordantes, a perseguir por anos a fio famílias inteiras de "subversivos terroristas", a arrasar as entranhas do país com a dominação capital que ontem e hoje esmaga o mundo com suas botas mercenárias.

Capa do jornal O Globo - 02/04/1964

Longo período de dor e angústia, mesmo para os que não eram "esquerdistas" nem sequer conheciam esse tal de Marx, socialismo, comunismo e todos os nomes floreados da contestação à propriedade. Eu mesma nem sei muito de teorias, mas sei do que acredito. E não acredito nos benefícios do público leiloado ao privado, nem antes nem agora. Acredito que o estado deve servir ao seu povo, e a ditadura brasileira só serviu aos interesses particularíssimos do grande Capital e seus servos, e a mais ninguém.

Ao povo relegou-se a miséria e a opressão. Aos militantes, em sua maioria jovens cheios de sonhos a La "imagine" de John Lennon: as balas, cadeias, choques, paus de arara, porrada e humilhação. Quem vai contar a história dos pobres sob botas pretas? Como viveram os miseráveis? A eles não  ofertaram escola, não foi lhes oferecida a dignidade que hoje vai caindo a conta gotas. Nada. A ditadura nos ofereceu atraso, vendeu nosso suado mal acabado desenvolvimento, surrupiou a esperança de toda uma população para manter a mesma elite colonial em seu trono, como dantes, como quando tudo começou.

Golpe - 1964
Não há nada a ser comemorado. A realidade hoje é produto daquela mutilação que sofremos lá atrás, sessentíssima. No florescer do pensamento libertário nós fomos encarcerados em um porão de medo e teorias conspiratórias muito bem propaladas pela imprensa também golpista que deu vivas à "revolução" pela família (não a minha) e a propriedade, que deu voz aos donos do chicote que nos açoitou, que apoiou a sangria da nossa pátria. Não nos chegavam os livros, os discos, o brilhantismo dos nossos próprios artistas, escritores, estudiosos, cientistas. A voz multicolorida e brasileira tornou-se cinza chumbo amordaçada. E riam-se as corporações e os yankees lá de cima jogando WAR com as nossas pernas secas.

Hoje as polícias nos metem medo, ainda. Não servem para nos proteger mas ainda para nos calar. Se reclamamos gritamos vibramos contra o ainda incrustado charlatanismo no poder dos estados ainda apanhamos e nos culpam por atrapalhar o trânsito, impedir o trabalho honesto, vagabundear alarde, "que saco estes jovens que não são mais como antes". Ah, mas são. Nós atrapalhamos o trânsito sim sacaneamos quem nos sacaneia silenciosamente no dia a dia. Nós temos que fazer piada com essa gente que acha ainda que o público é deles e não de todos. E vivem a nos vender em conchavos, como antes.

crédito - Dani Marques via FB
Aos poucos avançamos, mas aquele tempo ainda está aqui. Como bem disse Marilena Chauí, filósofa (esquerdista maconheira Prates?), nosso sistema político foi parido por gente que sabia-se sem saída e nasceu essa cilada em forma de democracia. Eleições submetidas à grana, reforma que nunca chega porque lá no congresso instalaram-se entre um e outro sonhador uma camarilha de colegas adeptos da acumulação da terra, da produção, do nosso suor e da nossa vida toda, claro. Nós, o povo, não valemos nada a empresários que financiam políticos.

Não quero criminalizar assim os políticos. Não, muitos nos servem o melhor que podem, mas nosso sistema é doente. O filho doente da ditadura mal acabada. Por isso ainda apanhamos da polícia ainda militar (só eu me pergunto por quê diabos ela ainda existe?), por isso ainda nos vigiam em nossas atividades, por isso Marcelino Chiarello foi assassinado. Sim, assassinado, à revelia de laudo fabricado a lhe tachar um suicida, quando tentou ser valente. Chiarello morreu por que vivemos à sombra daquele maldito regime a que querem hoje estes senhores pijamados "comemorar" com a nossa grana.

Protesto em frente ao Clube Militar - 29/03/2012
Uma piada de mau gosto. Morbidade que só os sádicos conseguem aproveitar. Eu não, nem os jovens que contraprotestaram, nem minha educação sucateada nos 90, nem o país sacaneado nos 80, nem todas as lutas suspensas por aquele golpe, sim, GOLPE retardante e macabro, ninguém minimamente sensibilizado comemora aquilo. Não há nada de exagero, nada de vingança. Há sim sede por justiça, pois o que temos hoje é fruto de duas décadas e meia de estupro nacional. Cadeia para torturadores, reforma na nossa política, são duas lutas que me nascem do umbigo que nasceu em 85, com a quase morte do regime otário.

Quem quer mais do Brasil não se cala diante de tamanha cara de pau. Calem-se os golpistas torturadores, que grite e atrapalhe muito ainda o trânsito a juventude deste novo Brasil.

Suicídio? Ontem e hoje.



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