10 de outubro de 1985. Bairro Abraão, cidade de Florianópolis. Nascia esta Bruaca que vos fala, no apartamento de sua avó, localizado no condomínio "Poeta Zininho" (pra quem não sabe o autor do Rancho de amor à Ilha, atual hino da cidade de Florianópolis, antiga Desterro).
Minha mãe relata que estava tranquila, andando pra lá e pra cá enquanto as contrações iam se aproximando, acontecendo em intervalos mais curtos, respirando, respirando. No som de casa ouvia-se "Dona", de Sá e Guarabira (época da novela Roque Santeiro), meu pai saiu pra buscar o médico, Dr. Fred, que na época fazia os "ousados" partos em casa e já era perseguido pelos conselhos de medicina. Segundo a mãe o sol se punha lá fora, a luz invadia o quarto, enquanto eu invadia o mundo pela primeira vez. Um fim de tarde para se recordar.
Quase na hora de a cria nascer, entra Dr. Pedrão, colega do Dr. Fred, e os dois recebem juntos a minha pequena e sonolenta pessoa, que avisou que estava viva e logo dormiu (eu digo que sou feita de sono, não é à toa). Dormi por 24 horas. Tudo tranquilo. Pai e mãe ali, criança saudável e um trabalho magnífico de dois profissionais sérios e comprometidos com a vida.
A mãe já tinha experiência, minha irmã havia nascido em casa, da mesma forma, três anos antes. O que ela sempre me ensinou a respeito de gravidez e partos é que somos naturalmente preparadas para eles. Nosso corpo é constituído de todas as "ferramentas" necessárias para trazer nossos filhos ao mundo. Desta forma, em casa, sem auxílio de médico algum, mas de parteiras, nasceram milhões e milhões de crianças saudáveis. Algumas morreram. Algumas sofreram de complicações. Quantas? Não sei dizer.
O que sei é que meu parto, bem como o da minha irmã, duraram cerca de quatro horas. Duas horas depois de cada um deles, minha mãe estava andando normalmente, dando banho no seu neném e convalescendo como se deve, mas sem corte algum no seu corpo. Sem exames invasivos e desrespeitosos de toque a cada quinze minutos. Sem estar atirada numa cama gelada pendurada feito uma rã, numa posição desconfortável tanto para mães quanto para bebês.
Minha mãe não ficou sozinha na madrugada, sendo agredida física e psicologicamente por enfermeiras desrespeitosas com a sua condição, como minha ex-sogra. Minha mãe não foi xingada nem ouviu que "soube dar agora não faça escândalo", como uma amiga minha ouviu. Minha mãe não ficou esperando agoniada enquanto seu neném já quase lhe escapava da vida porque insistiam em "aguardar" contrações que nunca vinham, como outra amiga minha. E eu tenho mais histórias que poderia contar. Mas acho que já ilustrei. Minha mãe teve paz no seu parto. Amor, carinho, tranquilidade. Estava no seu lar, com os seus.
E o mais importante: ela estava acompanhada do seu médico. Um médico atencioso, cuidadoso, com supremo respeito por ela e por sua condição. Um médico consciente do seu papel. Mas esse médico, diante dos conselhos de medicina, naquela época e hoje ainda mais, é um criminoso. Este médico, que atendeu sua paciente na sua casa, com todas as precauções, é mal visto aos olhos dos conselhos. Mas a médica de uma outra amiga minha, que lhe disse que "dinheiro nenhum cobre minha noite de sono", e lhe empurrou uma cesária sem realmente atestar a necessidade, essa é exemplo (de quê não me perguntem, posso ser deselegante).
O Brasil é campeão mundial em cesárias. A cesária é uma cirurgia. Eu gostaria de entender porque raios uma cirurgia que retalha sei lá quantas camadas de tecido é mais segura que um parto natural, só por estar dentro de um hospital. Um hospital frio, no clima e no sentimento, na grande maioria das vezes. Eu não quero falar de números, nem de técnicas. Dr. Fred foi perseguido e certa vez "punido" com o impedimento da entrada de uma de suas pacientes (que teve complicações) no hospital. É esta a responsabilidade dos conselhos de medicina? Qual o seu real interesse?
Ora, se houver complicações no parto em casa, uma equipe que estiver em prontidão pode tranquilamente atendê-la. Considerando que o médico que está fazendo o parto em casa acompanhou toda a gravidez da sua paciente e conhece seu quadro, por quê não dar suporte ao seu trabalho, ficando de prontidão caso algo aconteça de errado na hora do parto? Dr. Fred nunca perdeu uma paciente. Eventualmente poderia ter perdido. Assim como o médico que atende desumanamente em um hospital, eventualmente deixa uma paciente morrer por simples falta de sensibilidade, de humanidade.
Essa proibição me machuca duplamente. Primeiro, porque meu filho (se eu o tiver, quando o tiver) segundo esta regra estapafúrdia, não terá o direito de nascer em casa, pelo menos não acompanhado de um médico. Depois, porque por muitos anos eu quis ser médica. Pior, pensei inúmeras vezes em fazer obstetrícia, caso fizesse medicina. Das duas maneiras, esta proibição me agride. Agride meu direito de escolha, agride meu entendimento do que é um médico, e do que deve ser importante para um médico.
Mas já não é de hoje que ser médico virou sinônimo de ser um babaca que se acha superior ao resto da humanidade. Ao ponto de acharem, certos médicos, que sem eles ninguém pode nem nascer. É um disparate.
É como se Deus, ao criar Adão e Eva, tenha criado primeiro o médico para fazer o parto dos filhos do casal primordial. Piada, né?
Penso que o risco de infecção não é tão grande nos partos em casa, mas na desconexão do ser humano com a sua própria natureza. É uma infecção de desamor. Dizem: "É a evolução, bebê"
gostei demais deste teu post! mtas mulheres deviam lê-lo e refletir sobre ele. eu tive dois filhos no hospital, mas ambos de parto normal e jamais faria uma cesária se isso ñ fosse por risco de vida. botar uma criança no mundo e ñ participar ativamente deste mmto nao me entra na cabeça. mas o parto natural e em casa ainda q assistido não gera maiores custos e por tanto não é de interesse da medicina comercial que domina a atulidade.
ResponderExcluirparabens pelo tema, por teu posicionamento e tua abordagem.